Em resumo
- A escrita maia combina logogramas e sinais silábicos e permite registrar frases completas.
- Sistemas mixteco e mexica usam imagem, número e elementos fonéticos, sobretudo em nomes.
- Os quipos codificam números com precisão; a existência de registro narrativo é hipótese em aberto.
- O 'fim do mundo em 2012' resultou de um mal-entendido sobre a estrutura da Conta Longa.
Registrar sem alfabeto
Um erro comum é imaginar uma escala única, com o alfabeto no topo e todo o resto como tentativas incompletas. Sistemas de registro são ferramentas: cada um resolve determinados problemas com determinada eficiência, e nem todos foram criados para transcrever a fala.
Nas Américas antigas coexistiram soluções bem diferentes: escrita logossilábica capaz de registrar frases inteiras, sistemas pictóricos com forte componente convencional, notação numérica posicional e registro por cordões com nós. Comparar essas soluções pelo que cada uma consegue fazer é mais produtivo do que ordená-las em uma fila.
A escrita maia
É o sistema mais completo entre os conhecidos no continente. Combina logogramas, sinais que representam palavras, e sinais silábicos, que representam sequências de consoante e vogal. Um mesmo som pode ser grafado de várias maneiras, e escribas exploravam essa flexibilidade como recurso estético.
Os blocos glíficos são organizados em colunas duplas e lidos de cima para baixo, da esquerda para a direita, dentro de cada par de colunas. Os textos aparecem em estelas, painéis, degraus, vasos, ossos e nos poucos livros dobrados sobreviventes.
A decifração levou mais de um século e envolveu muitas pessoas. Dois marcos costumam ser destacados: a proposta de Yuri Knórosov, nos anos 1950, de que muitos sinais tinham valor fonético; e a demonstração de Tatiana Proskouriakoff, na década seguinte, de que as estelas registravam biografias de governantes. Hoje é possível ler a maior parte dos textos conhecidos, embora sinais isolados continuem sem leitura consensual.
Também se reconhecem outros sistemas antigos na região do istmo, como a escrita chamada epi-olmeca ou ístmica, presente em peças como a Estela 1 de La Mojarra. Propostas de decifração foram publicadas, mas não há consenso, principalmente pela quantidade reduzida de textos disponíveis.
Livros pintados: mixtecos e mexicas
Nas tradições mixteca e nahua, o registro é feito em livros dobrados em forma de sanfona, produzidos em pele de veado preparada ou em papel de casca de árvore. Combinam figuras, sinais convencionais e números, com elementos fonéticos usados sobretudo em nomes de pessoas e de lugares.
Os códices mixtecos, como os conhecidos por Nuttall, Vindobonensis e Bodley, registram genealogias e feitos de linhagens governantes, com cronologias detalhadas. É possível acompanhar a trajetória de personagens específicos, entre eles o governante identificado como Oito Veado Garra de Jaguar, ao longo de várias décadas.
Há debate sobre o grau de fonetismo desses sistemas. Todos concordam que existem componentes fonéticos em topônimos e antropônimos; a discussão está em quanto do restante do conteúdo era determinado pela convenção visual e quanto dependia de recitação oral que acompanhava a leitura das imagens.
Depois de 1521, escribas indígenas passaram a usar o alfabeto latino para registrar suas línguas, produzindo um corpo documental enorme em náuatle, maia yucateco, mixteco e quíchua — desde crônicas históricas até testamentos e processos judiciais.
Quipos: números em cordões
Nos Andes, o registro se fazia com khipus: cordões pendurados em uma corda principal, com nós de tipos distintos em posições determinadas. A leitura numérica é bem compreendida: a posição do nó no cordão indica a ordem decimal, e o tipo de nó indica o valor.
Cor, material, direção da torção e posição relativa dos cordões acrescentam camadas de informação, provavelmente identificando categorias — o que era contado, a quem pertencia, a que unidade correspondia. Boa parte dessas convenções ainda não foi reconstituída.
Se algum tipo de quipo registrava informação narrativa é a grande questão em aberto. Cronistas mencionam especialistas que "liam" histórias a partir deles, mas isso pode indicar tanto codificação no objeto quanto uso do quipo como apoio de memória para um relato oral. Não existe decifração aceita, e a pesquisa continua.
Calendários encaixados e a Conta Longa
Na Mesoamérica, dois ciclos funcionavam simultaneamente: um ritual, de 260 dias, e outro de 365 dias, este dividido em dezoito períodos de vinte dias mais um acréscimo de cinco. A combinação de ambos gera o Calendário Redondo, que se repete a cada 52 anos.
Para datar eventos de forma absoluta, os maias usavam a Conta Longa, que registra o número de dias decorridos desde uma data inicial fixa, em unidades encaixadas: k'in (dia), winal (20 dias), tun (360 dias), k'atun (7.200 dias) e b'ak'tun (144.000 dias).
Foi essa estrutura que originou a confusão sobre 2012. O que ocorreu naquele ano foi a passagem do décimo terceiro b'ak'tun, evento comparável à virada de um marcador de milhar em um contador — previsto pelo próprio sistema, sem qualquer conotação de fim. Textos maias antigos, aliás, projetam datas muito além dessa marca.
Relacionar as datas maias ao calendário atual exige uma constante de correlação. A mais usada, conhecida pelas iniciais GMT, é sustentada por comparação com datas coloniais, por observações astronômicas registradas nos códices e por datações por radiocarbono, mas variações menores continuam sendo discutidas.
Glossário
| Termo | Significado |
|---|---|
| Logograma | Sinal que representa uma palavra inteira. |
| Sinal silábico | Sinal que representa uma sílaba, geralmente consoante mais vogal. |
| Conta Longa | Sistema maia de datação absoluta, em dias decorridos desde um ponto inicial. |
| B'ak'tun | Unidade da Conta Longa equivalente a 144.000 dias. |
| Khipu | Conjunto de cordões com nós usado para registro nos Andes. |
| Correlação | Constante que converte datas maias em datas do calendário atual. |
O que ainda está em discussão
Nem tudo o que se lê sobre este assunto é consenso. Os pontos abaixo continuam sendo debatidos por pesquisadores, e o texto acima procura tratá-los como questões abertas, não como fatos assentados.
- O grau de fonetismo nos sistemas mixteco e mexica é discutido entre especialistas.
- A escrita epi-olmeca tem propostas de decifração publicadas, mas nenhuma consensual.
- A hipótese de quipos com conteúdo narrativo continua sem confirmação.
Referências utilizadas
Estas são as principais obras, instituições e acervos consultados para este conteúdo e para as perguntas do quiz correspondente.
- Michael D. Coe, Breaking the Maya Code (Thames & Hudson).
- Sächsische Landesbibliothek de Dresden, ficha e digitalização do Codex Dresdensis.
- Bodleian Library, Universidade de Oxford, códices mixtecos e o Códice Mendoza.
- Gary Urton, pesquisas sobre khipus, Universidade Harvard.
- INAH, estudo sobre o Códice Maia do México (2018).
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