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Incas

Uma estrutura política construída em poucas gerações sobre milhares de anos de experiência andina anterior.

Região
Andes centrais e meridionais
Período
século XV a 1572
Quiz
10 perguntas

Em resumo

  • O nome próprio do conjunto era Tawantinsuyu, formado por quatro grandes regiões articuladas a partir de Cusco.
  • A expansão rápida do século XV apoiou-se em instituições andinas anteriores, como o ayllu e o trabalho por rodízio.
  • Não havia moeda nem mercado generalizado: o Estado mobilizava trabalho e redistribuía produtos.
  • Os quipos registravam contagens; se também registravam narrativas é assunto ainda em pesquisa.

O que era o Tawantinsuyu

O termo quíchua Tawantinsuyu designa o conjunto formado por quatro suyus, ou regiões: Chinchaysuyu, ao noroeste; Antisuyu, a leste, na direção da floresta; Collasuyu, ao sudeste, incluindo o altiplano; e Cuntisuyu, a sudoeste, em direção ao litoral. As quatro convergiam em Cusco, considerada o centro do mundo organizado.

A expansão para além do vale de Cusco costuma ser situada a partir do governo de Pachacuti, por volta de 1438, e prosseguiu com seus sucessores. Em menos de um século, o domínio inca alcançou do sul da atual Colômbia ao centro do Chile e ao noroeste da Argentina.

Essa velocidade só se explica porque os incas não partiram do zero. Terraços agrícolas, criação de camelídeos, tecelagem fina, metalurgia, redes de caminhos e formas de trabalho coletivo já existiam nos Andes havia milênios, desenvolvidos por sociedades como Chavín, Moche, Nazca, Tiwanaku, Wari e Chimú. O Estado inca integrou e ampliou esse repertório.

Caminhos, depósitos e comunicação

O Qhapaq Ñan, sistema viário andino, articulava rotas de altiplano e de litoral com ramais transversais. Estimativas de extensão total variam, e o conjunto inscrito pela UNESCO em 2014, compartilhado por Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru, é apresentado como um sistema de dezenas de milhares de quilômetros.

Ao longo dos caminhos havia tampus, estações de parada com alojamento e depósitos, e qollqas, armazéns construídos em encostas ventiladas para conservar alimentos e tecidos. A comunicação rápida ficava a cargo dos chaskis, mensageiros que operavam em revezamento entre postos próximos.

As estradas não serviam ao comércio privado. Circulavam por elas exércitos, funcionários, tributo em trabalho e produtos redistribuídos pelo Estado. Pontes de fibra vegetal trançada cruzavam desfiladeiros e eram refeitas periodicamente pelas comunidades responsáveis — prática que sobrevive na ponte Q'eswachaka, renovada todos os anos e reconhecida pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial em 2013.

Ayllu, mit'a e reciprocidade

A base social andina é o ayllu, grupo de parentesco com direitos coletivos sobre terras e obrigações mútuas de trabalho. O Estado inca não desmontou essa estrutura: apoiou-se nela.

O principal encargo devido ao Estado era a mit'a, turno de trabalho prestado por rodízio: construção de estradas, cultivo de terras estatais, serviço militar, mineração, obras hidráulicas. Não era tributo em dinheiro nem em bens produzidos pela família, e sim tempo de trabalho, com o Estado obrigado a fornecer alimentação, bebida e festas durante o período.

Havia ainda categorias específicas. Os yanakuna serviam permanentemente a instituições ou a pessoas de alto status. As aqllakuna, mulheres selecionadas, viviam em estabelecimentos próprios dedicados à produção têxtil de alta qualidade e à preparação de chicha para cerimônias. Os mitmaqkuna eram populações inteiras transferidas de região, política usada para reduzir resistências e implantar cultivos.

Um alerta importante: o termo mit'a reaparece no período colonial designando um sistema de trabalho forçado bem mais duro, especialmente nas minas de Potosí. As duas coisas não devem ser confundidas.

Quipos: registrar sem alfabeto

Os khipus, ou quipos, são conjuntos de cordões pendurados em uma corda principal, nos quais nós de tipos diferentes, posicionados em alturas distintas, registram quantidades em base decimal. Cor, torção, material e ordem dos cordões acrescentam informação.

Que os quipos funcionavam como instrumento contábil é ponto pacífico: cronistas descrevem seu uso para censos, estoques de armazém e contagens de trabalho, e os exemplares preservados confirmam a estrutura numérica. O que permanece em aberto é se determinados quipos também codificavam informação não numérica, como nomes, lugares ou narrativas. Existem hipóteses nesse sentido e pesquisas em andamento, mas não há decifração aceita.

Vale distinguir o que sabemos do que gostaríamos de saber. Afirmar que "os incas escreviam com nós" é ir além do que a evidência sustenta hoje.

Agricultura vertical e alimento estocado

Os Andes oferecem, em poucos quilômetros horizontais, uma sucessão de faixas ecológicas com climas muito diferentes. Comunidades andinas exploravam simultaneamente vários desses andares para obter milho, batata, quinoa, coca e produtos de camelídeos. O antropólogo John Murra descreveu esse padrão como "arquipélago vertical", modelo que continua sendo discutido e ajustado pela pesquisa.

Os terraços, ou andenes, resolvem vários problemas ao mesmo tempo: criam superfície plana em encosta, reduzem erosão, melhoram drenagem e acumulam calor, ampliando a altitude em que certos cultivos amadurecem. O sítio de Moray, perto de Cusco, com terraços concêntricos em depressões naturais, é frequentemente citado como possível espaço de experimentação agrícola, embora essa interpretação seja uma hipótese, não um fato estabelecido.

A conservação de alimentos completava o sistema. O chuño é obtido expondo batatas ao congelamento noturno e à radiação solar diurna, com prensagem manual entre os ciclos; o resultado é um produto leve, que se conserva por anos. O charque de carne de camelídeo seguia lógica parecida. Foi essa capacidade de estocagem que sustentou exércitos e obras em regiões distantes.

Machu Picchu: o que se sabe e o que se repete sem base

Machu Picchu fica em um esporão entre picos, no vale do Urubamba. A interpretação mais aceita hoje, apoiada em documentos coloniais estudados a partir dos anos 1980, é que se tratava de uma propriedade real ligada a Pachacuti, com funções residenciais, cerimoniais e agrícolas.

Não era uma cidade perdida nem um refúgio final contra os espanhóis. O sítio nunca foi esquecido pelas populações locais, que o conheciam e cultivavam nas proximidades quando Hiram Bingham chegou, em 1911, em expedição apoiada pela Universidade Yale. O que ocorreu naquele ano foi a divulgação internacional do lugar, não sua descoberta.

Também não há evidência de que fosse um templo dedicado a virgens do sol, ideia difundida no século XX a partir de leituras equivocadas de restos ósseos. Reanálises posteriores dos mesmos materiais não confirmaram a predominância feminina que havia sido sugerida.

1532 e o que veio depois

Quando as forças de Francisco Pizarro chegaram, o Tawantinsuyu vinha de uma guerra entre Huáscar e Atahualpa, meios-irmãos que disputavam a sucessão, e já havia sido atingido por epidemias vindas do norte antes mesmo do contato direto. Atahualpa foi capturado em Cajamarca em 1532 e executado no ano seguinte.

A resistência, porém, não terminou aí. Um Estado inca continuou existindo em Vilcabamba até 1572, quando Túpac Amaru foi capturado e executado. Levantes posteriores, como o liderado por Túpac Amaru II em 1780, mobilizaram memória e legitimidade incaicas.

O quíchua e o aimará seguem entre as línguas indígenas mais faladas das Américas, com milhões de falantes no Peru, na Bolívia e no Equador, além de comunidades na Argentina e no Chile.

Glossário

TermoSignificado
Tawantinsuyu'As quatro regiões reunidas'; nome do conjunto político governado a partir de Cusco.
AylluGrupo de parentesco com terras coletivas e obrigações recíprocas de trabalho.
Mit'aTurno de trabalho devido ao Estado, prestado por rodízio pelas comunidades.
Qhapaq ÑanSistema de caminhos andinos que articulava as quatro regiões.
KhipuConjunto de cordões com nós usado para registro, sobretudo numérico.
AndénTerraço agrícola construído em encosta, com muro de contenção e drenagem.

O que ainda está em discussão

Nem tudo o que se lê sobre este assunto é consenso. Os pontos abaixo continuam sendo debatidos por pesquisadores, e o texto acima procura tratá-los como questões abertas, não como fatos assentados.

  • Não há consenso sobre se algum tipo de quipo registrava informação narrativa além de números.
  • O modelo de 'arquipélago vertical' descreve bem muitos casos, mas sua aplicação universal é discutida.
  • A função do sítio de Moray, com seus terraços concêntricos, permanece hipótese, sem confirmação definitiva.

Referências utilizadas

Estas são as principais obras, instituições e acervos consultados para este conteúdo e para as perguntas do quiz correspondente.

  • Terence N. D'Altroy, The Incas (Wiley-Blackwell).
  • UNESCO, Centro do Patrimônio Mundial: Qhapaq Ñan, Sistema Viário Andino (2014) e Santuário Histórico de Machu Picchu (1983).
  • Ministério da Cultura do Peru, fichas dos sítios arqueológicos de Cusco e do vale do Urubamba.
  • Museo Larco, Lima, acervo e material educativo sobre sociedades andinas.
  • Gary Urton, pesquisas sobre khipus, Universidade Harvard.

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