Em resumo
- O tzolk'in de 260 dias e o haab' de 365 giram simultaneamente e voltam à mesma combinação a cada 52 anos.
- A Conta Longa registra dias corridos desde uma data-base, o que permite situar um evento sem ambiguidade.
- O fim do 13º bak'tun caiu em 21 de dezembro de 2012 e nenhum texto maia previu o fim do mundo para essa data.
- Vários desses ciclos são anteriores aos maias e continuaram em uso em comunidades da Guatemala até hoje.
Três contagens ao mesmo tempo
A dificuldade de quem estuda o assunto pela primeira vez não está na matemática, que é simples, mas na expectativa errada: procura-se um calendário e encontram-se três, funcionando em paralelo, cada um respondendo a uma pergunta diferente.
- O tzolk'in, de 260 dias, responde "que dia ritual é hoje".
- O haab', de 365 dias, responde "em que ponto do ano estamos".
- A Conta Longa responde "quantos dias se passaram desde o início desta era".
Os dois primeiros são compartilhados por praticamente toda a Mesoamérica. A Conta Longa é característica das terras baixas maias no período Clássico, embora suas origens sejam anteriores e apareçam em monumentos de outras regiões.
Tzolk'in: o ciclo de 260 dias
O tzolk'in combina treze números com vinte nomes de dia. Os nomes, na forma iucateca mais difundida, são Imix, Ik', Ak'bal, K'an, Chikchan, Kimi, Manik', Lamat, Muluk, Ok, Chuwen, Eb, B'en, Ix, Men, K'ib, Kab'an, Etz'nab, Kawak e Ajaw.
As duas séries avançam juntas, um passo por dia. Depois de 1 Imix vem 2 Ik', depois 3 Ak'bal, e assim por diante. Quando os números chegam a 13, recomeçam do 1, enquanto os nomes continuam sua sequência de vinte. A combinação só se repete depois de 13 × 20 = 260 dias.
Cada uma dessas 260 combinações tinha caráter próprio, favorável ou não a determinadas atividades. O dia de nascimento no tzolk'in influenciava o nome e o destino de uma pessoa, e especialistas consultavam a contagem para marcar rituais, guerras e casamentos.
Por que 260 dias?
Não há resposta fechada. Circulam várias hipóteses: a duração aproximada da gestação humana; o intervalo entre as duas passagens do sol pelo zênite em latitudes próximas a 15° norte, onde ficam várias cidades maias; um ciclo agrícola do milho em determinadas regiões; combinações com ciclos de Vênus. Nenhuma delas é comprovada, e é possível que o número tenha se consolidado por uma soma de razões. Quem apresenta uma explicação única como certa está indo além da evidência.
Haab': o ano de 365 dias
O haab' aproxima o ano solar. São dezoito meses de vinte dias — Pop, Wo, Sip, Sotz', Sek, Xul, Yaxk'in, Mol, Ch'en, Yax, Sak, Keh, Mak, K'ank'in, Muwan, Pax, K'ayab e Kumk'u — somando 360 dias, mais um período final de cinco dias, o Wayeb'.
Os dias do Wayeb' eram considerados perigosos, um intervalo em que as fronteiras entre os mundos se afrouxavam. Fontes coloniais descrevem restrições de comportamento nesse período.
Uma particularidade: a contagem dos dias dentro de cada mês costuma começar em zero, o que faz o primeiro dia ser "assentamento" do mês. Assim, o dia seguinte a 19 Pop é 0 Wo, e não 1 Wo.
O haab' não tinha ajuste equivalente ao ano bissexto. Como o ano trópico dura aproximadamente 365,2422 dias, o haab' desliza pouco menos de um dia a cada quatro anos em relação às estações. Os maias conheciam essa defasagem — os cálculos astronômicos registrados em códices demonstram precisão bem maior —, mas o haab' seguia sendo contado como estava.
Calendário Redondo: o encontro dos dois ciclos
Como tzolk'in e haab' correm em paralelo, cada dia recebe uma dupla identificação: por exemplo, 4 Ajaw 8 Kumk'u. Essa combinação se repete quando os dois ciclos voltam a coincidir, o que ocorre a cada 18.980 dias — o mínimo múltiplo comum de 260 e 365. São 52 anos haab', ou pouco menos de 52 anos solares.
Esse período de 52 anos é conhecido como Calendário Redondo e tem enorme peso ritual em toda a Mesoamérica. Entre os mexicas, o fechamento do ciclo era marcado pela cerimônia do Fogo Novo, em que se apagavam todos os fogos e se acendia um novo, garantindo a continuidade do mundo por mais 52 anos.
O problema prático é evidente: uma data de Calendário Redondo é ambígua fora de um intervalo de 52 anos. "4 Ajaw 8 Kumk'u" pode se referir a episódios separados por séculos. Para uma sociedade que registrava dinastias ao longo de muitas gerações, isso não bastava.
Conta Longa: dias corridos desde uma data-base
A solução foi contar dias corridos a partir de um ponto fixo. A Conta Longa registra quantos dias se passaram desde a data-base, escrita em cinco posições, da maior para a menor.
| Unidade | Equivale a | Em dias |
|---|---|---|
| K'in | 1 dia | 1 |
| Winal | 20 k'in | 20 |
| Tun | 18 winal | 360 |
| K'atun | 20 tun | 7.200 |
| Bak'tun | 20 k'atun | 144.000 |
Repare na única quebra do padrão vintesimal: o tun tem 18 winal, e não 20, o que aproxima a unidade de um ano solar. Uma data como 9.12.11.5.18 significa 9 bak'tuns, 12 k'atuns, 11 tuns, 5 winals e 18 k'ins decorridos desde a base.
A data-base é 13.0.0.0.0 4 Ajaw 8 Kumk'u, situada em 11 de agosto de 3114 a.C. pela correlação mais aceita, chamada GMT, das iniciais de Goodman, Martínez Hernández e Thompson. Há variantes de um ou dois dias e propostas alternativas minoritárias; a correlação exata continua sendo objeto de refinamento.
Com esse sistema, uma inscrição podia situar um evento sem ambiguidade dentro de mais de cinco mil anos. É esse recurso que permite hoje datar entronizações, batalhas e nascimentos maias com precisão de dia.
O que mais entrava numa data completa
As inscrições monumentais raramente se limitam à Conta Longa. Uma data completa costuma incluir também:
- a posição no tzolk'in e no haab';
- o Senhor da Noite correspondente, um ciclo de nove divindades que se alternam;
- a série suplementar, com informações lunares: idade da lua no dia, duração do mês lunar em curso e posição em um ciclo de seis lunações;
- números de distância, que somam ou subtraem intervalos para ligar um evento a outro dentro do mesmo texto.
Nos códices sobreviventes, sobretudo no Códice de Dresden, aparecem tabelas dedicadas a Vênus e a eclipses. A tabela venusiana acompanha o ciclo sinódico do planeta com valor médio muito próximo do atual, corrigido por ajustes periódicos. Esses registros não eram astronomia desinteressada: os momentos de aparição de Vênus eram associados a presságios e a decisões, inclusive militares.
O que realmente aconteceu em 2012
Em 21 de dezembro de 2012, pela correlação GMT, a Conta Longa completou 13.0.0.0.0: treze bak'tuns desde a data-base. Como a base também é escrita 13.0.0.0.0, tratava-se do fechamento de um grande ciclo — e isso foi tudo.
Não existe texto maia anunciando o fim do mundo para essa data. O único monumento conhecido que menciona 13.0.0.0.0 é o Monumento 6 de Tortuguero, em Tabasco, no México, cujo trecho final está danificado e faz referência à descida de uma divindade chamada Bolon Yokte' K'uh. Um bloco descoberto em La Corona, na Guatemala, também cita a data, em contexto político, comparando o reinado de um governante à duração de um ciclo.
Há evidência clara em sentido contrário à ideia de fim: inscrições maias projetam datas muito além de 2012. No Templo das Inscrições, em Palenque, há uma projeção para um aniversário de entronização em um futuro distante, milhares de anos à frente. Um calendário que termina em 2012 não faria essas contas.
A associação entre 2012 e catástrofe foi construída fora do mundo maia, a partir dos anos 1970, em livros de esoterismo, e amplificada por cinema e internet. Vale registrar que comunidades maias contemporâneas manifestaram desconforto com o uso comercial de sua herança nesse episódio.
Um calendário que continua em uso
O tzolk'in não é peça de museu. A contagem de 260 dias segue sendo praticada em comunidades maias das terras altas da Guatemala, onde especialistas rituais conhecidos como ajq'ijab', ou "guardiões dos dias", mantêm a conta e a utilizam em consultas, rituais e marcação de datas. A continuidade dessa prática é um dos argumentos usados na reconstrução do funcionamento do calendário antigo.
A Conta Longa, por sua vez, deixou de ser usada ainda no período Pós-clássico, substituída por uma contagem abreviada de k'atuns. Ela é hoje um instrumento de pesquisa, e é graças a ela que a história política maia pode ser datada com precisão que nenhuma outra sociedade americana antiga permite.
Se quiser fixar o assunto, o quiz sobre escrita e calendários cobre esses ciclos, e o conteúdo sobre os maias situa o calendário no contexto das cidades que o usavam.
Perguntas frequentes
Como funcionava o calendário maia?
Por ciclos simultâneos. O tzolk'in combinava treze números com vinte nomes de dia, formando 260 combinações. O haab' aproximava o ano solar com dezoito meses de vinte dias mais cinco dias finais. Os dois juntos formavam o Calendário Redondo, de 52 anos. Para datar eventos sem ambiguidade, usava-se a Conta Longa, que registra dias corridos desde uma data-base.
Por que o calendário maia tem 260 dias?
O tzolk'in tem 260 dias porque combina um ciclo de treze números com outro de vinte nomes. O motivo da escolha desses números não é conhecido: existem hipóteses ligadas à gestação humana, ao intervalo entre passagens solares pelo zênite e a ciclos agrícolas, nenhuma delas comprovada.
O calendário maia previu o fim do mundo em 2012?
Não. Em 21 de dezembro de 2012 terminou o 13º bak'tun da Conta Longa, um marco de ciclo. Nenhum texto maia anuncia catástrofe para essa data, e há inscrições que projetam datas milhares de anos à frente, como no Templo das Inscrições em Palenque.
Qual é a diferença entre tzolk'in e haab'?
O tzolk'in é o ciclo ritual de 260 dias, usado para determinar o caráter de cada dia e marcar cerimônias. O haab' é o ciclo de 365 dias que acompanha o ano solar e organiza atividades sazonais. Eles rodam em paralelo e voltam à mesma combinação a cada 52 anos.
O calendário maia era mais preciso que o nosso?
São coisas diferentes. O haab' não tinha correção equivalente ao ano bissexto, então deslizava em relação às estações. Por outro lado, as tabelas astronômicas maias, como a de Vênus no Códice de Dresden, alcançavam precisão notável para o período.
Alguém ainda usa o calendário maia?
Sim. A contagem de 260 dias continua em uso em comunidades maias das terras altas da Guatemala, mantida por especialistas rituais conhecidos como ajq'ijab'. A Conta Longa, essa sim, deixou de ser usada ainda antes da chegada dos europeus.
Referências
Obras, instituições e acervos consultados na preparação deste texto. Nenhuma afirmação foi incluída sem apoio em pelo menos uma dessas fontes.
- Michael D. Coe e Stephen Houston, The Maya (Thames & Hudson).
- Simon Martin e Nikolai Grube, Chronicle of the Maya Kings and Queens (Thames & Hudson).
- Sächsische Landesbibliothek – Staats- und Universitätsbibliothek Dresden, fac-símile digital do Códice de Dresden.
- Instituto Nacional de Antropología e Historia (INAH), México, materiais sobre Palenque e sobre o Monumento 6 de Tortuguero.
- UNESCO, Centro do Patrimônio Mundial: Parque Nacional Tikal e Cidade Pré-hispânica e Parque Nacional de Palenque.
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