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Conteúdo educativo

Nazca

Um deserto usado como superfície de desenho, e uma engenharia de água que mantém vales habitáveis até hoje.

Região
Costa sul do Peru
Período
c. 100 a.C. a 800 d.C.
Quiz
10 perguntas

Em resumo

  • Os geoglifos foram feitos retirando pedras escuras da superfície e expondo o solo claro por baixo.
  • Não é preciso voar para traçá-los: técnicas de estaqueamento e cordas explicam a execução.
  • As explicações mais discutidas para sua função envolvem rituais ligados à água, caminhos de procissão e marcação de território.
  • Os puquios captam água subterrânea por meio de galerias e poços em espiral, e alguns seguem em uso.

Como os geoglifos foram feitos

A pampa entre os vales de Nasca e Palpa é coberta por uma camada de pedras escurecidas pela oxidação. Logo abaixo, o solo é claro e amarelado. Para desenhar, bastava remover as pedras da superfície e empilhá-las nas bordas, expondo a faixa clara: o traço aparece por contraste.

Existem três tipos principais de figuras. Há linhas retas, algumas com quilômetros de extensão. Há grandes áreas geométricas, como trapézios e triângulos. E há figuras de animais e plantas — beija-flor, macaco, aranha, baleia, árvore, entre outras —, que, embora sejam as mais famosas, são minoria no conjunto.

A execução não exige tecnologia extraordinária. Experimentos de campo mostraram que é possível reproduzir figuras grandes com estacas, cordas e ampliação proporcional de um desenho pequeno. O fato de as figuras só serem plenamente legíveis do alto não implica que tenham sido feitas para ser vistas do alto: muitas são perceptíveis a partir das colinas próximas, e a legibilidade total pode simplesmente não ter sido o objetivo.

A conservação é extraordinária pela raridade de chuva e pelo vento constante, que não desloca as pedras já assentadas. Em compensação, pegadas e marcas de pneu duram décadas — daí as restrições de acesso à área.

O que se propõe sobre a função

Não há uma resposta única aceita. As hipóteses mais discutidas na literatura acadêmica incluem: percursos rituais caminhados em procissão; marcação de direções associadas a fontes de água e a cursos subterrâneos; delimitação de espaços de grupos sociais distintos; e referências a ciclos agrícolas e ao céu.

A matemática alemã Maria Reiche dedicou décadas ao levantamento e à proteção das figuras, defendendo interpretações astronômicas. Estudos estatísticos posteriores não confirmaram alinhamento sistemático com posições celestes, e a linha astronômica perdeu força, ainda que alinhamentos pontuais sigam sendo discutidos.

Um dado relevante é a presença de cerâmica quebrada ao longo de algumas figuras, especialmente em trapézios, o que sugere atividade ritual com oferendas nesses espaços. Também há geoglifos anteriores em encostas da região de Palpa, associados a fases mais antigas, ligadas à tradição Paracas.

Explicações envolvendo visitantes de outros mundos não têm qualquer base arqueológica. Elas partem da premissa equivocada de que essas sociedades seriam incapazes de realizar a obra, quando a evidência técnica mostra exatamente o contrário.

Puquios: engenharia de água

Nos vales de Nasca há um sistema de captação subterrânea conhecido como puquios. Galerias horizontais revestidas de pedra alcançam lençóis de água e a conduzem até reservatórios abertos, de onde ela é distribuída para canais de irrigação.

Em intervalos regulares, poços em espiral descem até as galerias. Eles permitem manutenção e limpeza e ajudam a movimentar o ar dentro do sistema. Muitos desses poços continuam funcionando e são mantidos por comunidades locais, que realizam limpezas periódicas.

A datação do sistema é discutida: parte dos pesquisadores atribui sua origem à época Nasca, enquanto outros defendem construção ou ampliação em períodos posteriores. Independentemente disso, trata-se de uma resposta engenhosa a um problema permanente: rios que secam em superfície durante boa parte do ano.

Cahuachi e a vida cerimonial

Cahuachi, às margens do rio Nasca, reúne dezenas de montes de adobe erguidos sobre elevações naturais modeladas. Durante muito tempo foi descrito como cidade, mas escavações prolongadas, conduzidas sobretudo pela missão italiana dirigida por Giuseppe Orefici, encontraram pouca evidência de moradia permanente e muita evidência de atividade ritual.

A leitura predominante hoje é a de um centro cerimonial visitado periodicamente, para onde afluíam pessoas de vários pontos da região em ocasiões determinadas. Foram recuperados ali têxteis, cerâmica, instrumentos musicais e depósitos de oferendas.

Entre os instrumentos, destacam-se as antaras, flautas de pã de cerâmica com afinação cuidadosa, e tambores. A música tinha papel nas cerimônias, ainda que não seja possível reconstruir como soavam essas ocasiões.

Cerâmica, tecidos e a herança Paracas

A cerâmica Nasca é policroma: os pigmentos são aplicados antes da queima, com engobes minerais, o que permite paletas de muitas cores em uma mesma peça. Os motivos combinam seres humanos, animais, plantas e figuras compostas, com tendência crescente à abstração ao longo do tempo.

Na mesma região litorânea, um pouco antes, desenvolveu-se a tradição Paracas, célebre pelos mantos bordados encontrados em fardos funerários na península de mesmo nome. A aridez preservou fibras e cores com nitidez rara. Esses tecidos, com centenas de figuras bordadas, estão entre os objetos têxteis mais complexos conhecidos do mundo antigo.

Há continuidade técnica e iconográfica entre Paracas e Nasca, o que levou pesquisadores a tratar as duas tradições como fases relacionadas de um mesmo desenvolvimento regional, e não como culturas isoladas.

Também aparecem, em contextos Nasca, cabeças humanas preparadas com perfuração frontal para suspensão, chamadas na literatura de cabeças-troféu. Sua interpretação é debatida: podem estar ligadas a guerra, a culto de ancestrais, a rituais de fertilidade ou a combinações desses elementos.

Glossário

TermoSignificado
GeoglifoFigura de grandes dimensões formada na superfície do solo, por remoção ou acúmulo de material.
PuquioSistema de captação de água subterrânea com galerias e poços em espiral.
AntaraFlauta de pã, frequentemente de cerâmica, comum em contextos rituais da costa sul.
EngobeCamada de argila colorida aplicada antes da queima, base da cerâmica policroma.
Fardo funerárioConjunto formado pelo corpo envolto em camadas de tecido e oferendas.

O que ainda está em discussão

Nem tudo o que se lê sobre este assunto é consenso. Os pontos abaixo continuam sendo debatidos por pesquisadores, e o texto acima procura tratá-los como questões abertas, não como fatos assentados.

  • A função dos geoglifos não está resolvida; várias hipóteses convivem e podem ser parcialmente complementares.
  • A datação de origem dos puquios divide pesquisadores entre época Nasca e períodos posteriores.
  • O significado das cabeças-troféu admite leituras diferentes, de guerra a culto de ancestrais.

Referências utilizadas

Estas são as principais obras, instituições e acervos consultados para este conteúdo e para as perguntas do quiz correspondente.

  • UNESCO, Centro do Patrimônio Mundial: Linhas e Geoglifos de Nasca e Palpa (1994).
  • Helaine Silverman e Donald A. Proulx, The Nasca (Blackwell).
  • Ministério da Cultura do Peru, gestão da reserva arqueológica de Nasca e Palpa.
  • Museo Larco e Museo Nacional de Arqueología, Antropología e Historia del Perú, Lima.
  • Projeto arqueológico Nasca, missão italiana dirigida por Giuseppe Orefici, escavações em Cahuachi.

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