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Mexicas (astecas)

Uma potência tardia da Mesoamérica, construída sobre uma ilha, um sistema de tributos e uma rede de cidades aliadas.

Região
Vale do México, Mesoamérica central
Período
século XIII a 1521
Quiz
10 perguntas

Em resumo

  • Mexicas é o nome que esse povo usava para si; 'astecas' é um termo popularizado no século XIX por autores europeus.
  • Tenochtitlan foi fundada em uma ilha do lago de Texcoco e cresceu com aterros agrícolas chamados chinampas.
  • O poder era exercido pela Tríplice Aliança, formada por Tenochtitlan, Texcoco e Tlacopan.
  • Boa parte do que sabemos vem de documentos produzidos depois de 1521, o que exige leitura crítica.

Mexicas ou astecas?

O povo que fundou Tenochtitlan se identificava como mexica. A palavra "asteca" deriva de Aztlan, o lugar de origem mencionado nas narrativas migratórias, e foi difundida na Europa a partir do século XIX, especialmente após os escritos de Alexander von Humboldt e de William H. Prescott. Ela pegou nos livros escolares e permanece em uso corrente.

Boa parte dos especialistas prefere "mexica" para se referir ao grupo específico de Tenochtitlan, reservando expressões como "povos nahuas" para o conjunto mais amplo de comunidades que falavam náuatle no centro do México. Neste site usamos "mexicas" como forma principal e mantemos "astecas" entre parênteses, porque é o termo pelo qual a maioria dos leitores chega ao assunto.

A distinção não é preciosismo. Tratar todos os povos do centro do México como "astecas" apaga tlaxcaltecas, texcocanos, xochimilcas, otomis e dezenas de outros grupos, muitos deles rivais de Tenochtitlan.

Uma cidade sobre a água

Segundo a tradição registrada nos códices, Tenochtitlan foi fundada em 1325 em uma ilha do lago de Texcoco. A escolha de um sítio alagado, pouco atraente para vizinhos já estabelecidos, acabou se revelando uma vantagem defensiva e logística: quase todo o transporte pesado podia ser feito por canoa.

O crescimento da cidade dependeu de engenharia hidráulica constante. Calçadas com pontes móveis ligavam a ilha à margem, aquedutos traziam água doce de Chapultepec e um dique atribuído a Nezahualcóyotl, governante de Texcoco, ajudava a separar as águas salobras das doces. Ao redor, campos elevados construídos sobre o leito raso do lago — as chinampas — produziam várias colheitas por ano.

Estimativas de população para o início do século XVI variam bastante, em geral entre 150 mil e 250 mil habitantes na ilha, o que colocaria Tenochtitlan entre as maiores cidades do mundo naquele momento. Como toda estimativa arqueológica e documental, esses números têm margem de erro ampla.

Altepetl, tributo e Tríplice Aliança

A unidade política básica da região era o altepetl, comunidade com território, governante próprio, templo principal e subdivisões internas chamadas calpultin. Cada altepetl mantinha sua identidade mesmo quando submetido a outro. Por isso, descrever a expansão mexica como "império" exige ressalvas: não houve substituição das elites locais nem administração provincial uniforme.

Em 1428, após a derrota de Azcapotzalco, formou-se a Tríplice Aliança entre Tenochtitlan, Texcoco e Tlacopan. A aliança repartia entre si o produto das campanhas militares e o tributo de regiões submetidas. Com o tempo, Tenochtitlan tornou-se claramente a parceira dominante.

O tributo era o eixo do sistema. Regiões submetidas entregavam periodicamente mantas de algodão, cacau, plumas, pedras verdes, milho, feijão e produtos regionais. Uma seção do Códice Mendoza, elaborado por volta de 1541 por escribas indígenas com glosas em espanhol, registra essas listas em detalhe, província por província.

Nem todos foram submetidos. A confederação de Tlaxcala manteve-se independente e hostil, e o Estado purépecha, a oeste, com capital em Tzintzuntzan, resistiu com sucesso às investidas mexicas. Essas rivalidades tiveram peso decisivo em 1519-1521, quando milhares de guerreiros indígenas se aliaram aos espanhóis contra Tenochtitlan.

O Templo Mayor e a vida religiosa

No centro cerimonial de Tenochtitlan erguia-se uma pirâmide dupla, com dois santuários no topo: um dedicado a Tláloc, associado à chuva e à fertilidade agrícola, e outro a Huitzilopochtli, divindade tutelar dos mexicas. O edifício foi ampliado várias vezes, e as etapas construtivas ficaram encaixadas umas nas outras como camadas.

A arqueologia moderna do sítio começou de forma inesperada. Em 1978, trabalhadores de uma companhia elétrica encontraram no centro da Cidade do México um grande monólito circular com a representação de Coyolxauhqui. O achado levou à criação do Proyecto Templo Mayor, sob coordenação do INAH, que desde então escava a área e mantém um museu no local.

As escavações revelaram centenas de depósitos rituais com objetos vindos de muito longe: conchas do Pacífico e do Caribe, corais, restos de aves e felinos, máscaras de estilo teotihuacano e peças de tradição mezcala. Esses conjuntos mostram tanto o alcance das redes de circulação quanto o interesse mexica em incorporar objetos antigos, tratados como herança de um passado prestigioso.

Escolas, escrita e registro

Havia escolas formais. O telpochcalli atendia à maioria dos jovens, com ênfase em trabalho comunitário e treinamento militar; o calmécac formava filhos da nobreza e futuros sacerdotes, com estudo de calendário, cantos, retórica e leitura de livros pintados.

O sistema de registro mexica combinava pictogramas, sinais que representam ideias e elementos fonéticos usados sobretudo para nomes de pessoas e lugares. Não se trata de uma escrita capaz de transcrever discurso contínuo, como a maia, mas também não é simples desenho: há convenções estáveis e leitura padronizada.

Depois de 1521, escribas indígenas passaram a registrar em náuatle usando o alfabeto latino. A obra mais extensa daí resultante é o Códice Florentino, organizado pelo frade Bernardino de Sahagún com colaboradores nahuas em Tlatelolco, concluído por volta de 1577 e hoje conservado na Biblioteca Medicea Laurenziana, em Florença. É uma fonte imprescindível — e, ao mesmo tempo, um documento produzido sob condições coloniais, o que exige leitura atenta.

Cuidados na leitura das fontes

Quase tudo o que se conta sobre os mexicas passa por filtros. As crônicas espanholas foram escritas por participantes da conquista, interessados em justificar suas ações. Os códices coloniais, mesmo os feitos por indígenas, atendiam a demandas de autoridades e tribunais. E a própria tradição mexica havia sido reescrita: relatos indicam que registros antigos foram destruídos e refeitos durante o governo de Itzcóatl, no século XV, para consolidar uma versão oficial do passado.

Um exemplo de como o debate segue aberto: números de vítimas de sacrifício humano variam enormemente conforme a fonte, e vários pesquisadores consideram exageradas as cifras das crônicas do século XVI. A prática existiu e está documentada arqueologicamente, inclusive por conjuntos de crânios encontrados no centro da Cidade do México, mas a escala precisa permanece em discussão.

Uma boa regra ao estudar o tema é perguntar sempre: quem escreveu, quando, para quem e com que interesse.

Glossário

TermoSignificado
AltepetlUnidade política local nahua, com território, governante e templo próprios.
TlatoaniLiteralmente 'aquele que fala'; governante de um altepetl.
ChinampaCampo elevado construído em área alagada, altamente produtivo.
CalpulliSubdivisão interna do altepetl, com terras e obrigações coletivas.
PochtecaComerciantes de longa distância organizados em corporações próprias.
NáuatleLíngua falada pelos mexicas e por muitos outros povos do centro do México, viva até hoje.

O que ainda está em discussão

Nem tudo o que se lê sobre este assunto é consenso. Os pontos abaixo continuam sendo debatidos por pesquisadores, e o texto acima procura tratá-los como questões abertas, não como fatos assentados.

  • A escala do sacrifício humano é objeto de divergência: as cifras das crônicas coloniais são consideradas exageradas por parte dos pesquisadores.
  • O grau de centralização do domínio mexica é discutido; muitos preferem falar em rede tributária, e não em império administrativo.
  • Estimativas populacionais de Tenochtitlan variam de forma ampla conforme o método usado.

Referências utilizadas

Estas são as principais obras, instituições e acervos consultados para este conteúdo e para as perguntas do quiz correspondente.

  • Michael E. Smith, The Aztecs (Wiley-Blackwell), síntese arqueológica de referência.
  • Códice Florentino, organizado por Bernardino de Sahagún com colaboradores nahuas, conservado na Biblioteca Medicea Laurenziana, em Florença.
  • Códice Mendoza, c. 1541, conservado na Bodleian Library, Universidade de Oxford.
  • Proyecto Templo Mayor e Museo del Templo Mayor, INAH, Cidade do México.
  • UNESCO, Centro do Patrimônio Mundial: Centro Histórico da Cidade do México e Xochimilco (1987).

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